O que há nesta simples folha de papel

Há muitos modos de olhar para as coisas e muitas formas de as ver, que revelam haver nelas muito mais do que a desatenta percepção habitual nos faz supor. Um sábio contemporâneo, Thich Nhat Hanh, mostra-nos que nesta simples folha de papel há a nuvem de onde veio a chuva que irrigou as árvores de onde se fez o papel, bem como a luz do sol que as fez crescer e também o lenhador que as cortou e levou para serem transformadas, assim como o trigo e tudo o mais de onde veio o alimento que nutriu o lenhador. Com a mesma visão, podemos também reconhecer cada um de nós nesta mesma folha de papel, na medida em que ela integra a nossa percepção e é inseparável de cada um dos nossos presentes estados mentais. Alargando até ao infinito o horizonte desta descoberta, facilmente constatamos que não podemos apontar nada que não esteja presente nesta simples folha de papel: “tempo, espaço, a terra, a chuva, os minerais no solo, a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor”. Daí a inadequação das noções de “ser” e “não-ser” para designarem a natureza profunda das coisas, que convoca um neologismo – “entre-ser” – para ser indicada. Toda a existência é uma coexistência universal, “ser é entre-ser”, tudo entre-é com tudo: “Esta folha de papel é porque tudo o mais é”, ela é apenas constituída por “elementos não-papel”, o que significa que, se dela fosse possível retirá-los, pura e simplesmente desapareceria.


O mesmo tipo de análise se aplica, com as mesmas conclusões, a tudo o que o Sutra do Diamante designa como “eu”, “pessoa”, “ser vivo” e “duração de vida” , conceitos convencionais recortados pela abstracção separativa e discriminatória na íntima urdidura do real e que não resistem ao minucioso exame racional que revela como as supostas identidades que designam são na verdade apenas constituídas de alteridades.


Na verdade o “eu”, a “pessoa” e os “seres vivos” nada são sem o sol, a água, o espaço, o trigo e demais alimentos, os estados mentais que os percepcionam e nomeiam como tais, etc., tudo elementos não-“eu”, não-“pessoa” e não-“seres vivos”. Do mesmo modo, uma “duração de vida”, aparentemente iniciada no momento do nascimento e extinta no momento da morte, designa na realidade um processo de contínua metamorfose em que constantemente inúmeras células morrem e nascem, sendo uma pura abstracção distinguir entre vida e morte num processo onde todos os organismos a cada instante se transformam em interdependência . É nesse sentido que o mesmo autor considera que os votos de Feliz Aniversário mais correctamente seriam de “Feliz Continuação”, recordando com humor que, apesar de as células continuamente nascerem e morrerem, não celebram “nascimentos” nem “funerais”.

Cortar ou cristalizar a tessitura dinâmica, metamórfica e entrelaçada do real em id-entidades supostamente permanentes, distintas e isoladas é nesta perspectiva o fruto de avidya, a ignorância, geradora das duas emoções básicas, o apego e a aversão, que estão na origem de todo o sofrimento e conflitos internos e externos. Em termos histórico-civilizacionais, discriminar e erigir uma falsa barreira entre a “ideia de pessoa” e a de “não-pessoa” teve como consequência o antropocentrismo, o considerar-se que os animais, as plantas e o mundo natural existem para servir a espécie humana, com o consequente investimento massivo numa tecnologia que permite explorar os demais seres vivos e a natureza em prol do mero bem-estar de uma espécie, o que todavia, devido à natureza interdependente de todas as coisas, tem cada vez mais o efeito indesejado de afectar gravemente a vida humana por via das alterações climáticas, da poluição, da destruição da biodiversidade e do surgimento de novas doenças, entre outros aspectos das mutações antropogénicas em curso no mundo natural do qual somos inseparáveis.

Daí a exortação a que todos nos assumamos como protectores da Terra e de todos os seres vivos , sem discriminar entre animado e inanimado, bem como a proposta de uma ética global que desperte os humanos do sonho sonâmbulo de viverem sem consciência do impacto que têm sobre o planeta e a biodiversidade.

Thich Nhat Hanh

 
 

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