Discurso na recepção do prémio Premio Ibn Arabi – Taryumán 2019

Lisboa, 8 de Maio de 2019

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Parto amanhã para Ávila, onde farei na Universidad de la Mística a conferência inaugural do IX Simpósio Internacional Ibn Arabî da MIAS-Latina, com o tema Poesia y Percepción Interior (Shi’r Wa-Shu’ûr) en Ibn Arabî y la Literatura Mística. No mesmo evento apresentarei o meu próximo livro, “Presença Ausente. A Saudade na Cultura e no Pensamento Portugueses / Nova Teoria da Saudade” e receberei o prémio Premio Ibn Arabi – Taryumán 2019 que esta instituição decidiu atribuir-me pela minha investigação e obra no domínio da filosofia, literatura e espiritualidade. Não sinto que o mereça, tanto mais que outro contemplado, com o Premio Ibn Arabi – Barzaj 2019, será o grande músico Eduardo Paniagua, com uma obra imensa no domínio da música medieval espanhola. Aceito todavia esta honra pelos motivos que expresso na intervenção que farei e que aqui partilho, onde falo do que devo às epifanias fundamentais sem as quais não seria quem vou sendo.

“Ser, Ser Ponte, Ser Índio, Ser Amor, Ser Céu”

Agradeço a honra do prémio Premio Ibn Arabi – Taryumán 2019 pela minha investigação e obra. É uma distinção que me sensibiliza e comove, mas que atribuo a uma generosidade que não sinto merecer. Para atenuar esse sentimento, gostaria de partilhar algumas das principais experiências epifânicas da minha vida, pois sinto-as como dons sem os quais não seria o que vou sendo, não faria o que vou fazendo, nem pensaria, diria ou escreveria o que vou pensando, dizendo e escrevendo.

Recordo, talvez por volta dos 7 ou 8 anos, o súbito sentimento do mistério, espanto e estranheza de ser. Primeiro a sós, na casa dos meus pais, quando o crescendo da sensação de existir e da interrogação do seu sentido, sem obter pacificação ou resposta, se avolumava até ao limiar do insuportável e de sentir que algo iria explodir em mim, talvez resvalando para a loucura, se persistisse no aprofundamento de uma experiência que parecia sorver-me para o totalmente desconhecido. Tinha então de regredir para a percepção convencional de mim e do mundo. Tinha de me distrair regressando à normalidade.

Descobri depois que não era o único a ter essa experiência, quando, sentados num muro caiado de branco, que hoje já não existe, na rua da casa dos meus pais, em Lisboa, eu e um colega de brincadeiras de infância subitamente nos abrimos e partilhámos a mesma experiência de nos sentirmos atónitos com o haver alguma coisa, nós incluídos, e de a impenetrabilidade e indizibilidade disso nos parecer tremendamente insustentável. Foi um breve diálogo, logo desfeito em silêncio, no meio de corridas e jogos de futebol na rua, mas que me trouxe uma profundidade e uma consolação que nunca mais encontrei nas melhores aulas ou nos melhores livros do curso de Filosofia. O meu companheiro de comoção pelo mistério da existência, um rapazinho nada intelectual e antes exímio nas práticas desportivas, adoeceu misteriosamente na adolescência e acabou por se suicidar.

Recordo também, desde tenra infância, mesmo antes da descoberta do mistério de ser, o tremendo fascínio pelas pontes e a inquietação que se apropriava de mim quando me aproximava delas e as atravessava, a pé, de comboio ou de carro. Em particular passar de comboio sobre a ponte da Cruz Quebrada, sobre o canal que desaguava no rio Tejo, já à beira do Oceano, era uma experiência numinosa, mista de profunda atracção e imenso temor. Nessa altura, ansiava por construir pontes quando fosse grande e diziam-me que tinha de estudar para ser engenheiro. Foi só mais tarde que comecei a compreender que não queria construir pontes materiais, mas sim pontes espirituais, intelectuais e cordiais entre tradições, espiritualidades, religiões, culturas, povos e disciplinas. Entre Tudo e Todos. Foi o primeiro despertar para a decisiva experiência do ENTRE, que se foi progressivamente tornando central na minha visão-experiência da vida e do mundo. Sei hoje que o fascínio pelas pontes prefigurou a minha dedicação ao encontro e diálogo inter-cultural, inter-espiritual e inter e trans-religioso.

Foi também nesses anos que vivi outra grande paixão: a identificação com os índios norte-americanos e em particular com o chefe Sioux Cavalo Louco. Ia todas as manhãs para a escola montado num cavalo com os longos cabelos adornados de plumas ao vento lançando flechas em todas as direcções. Chorava desconsolado com os filmes em que os índios eram sempre os maus e perdiam sempre. Senti o coração trespassado de dor e raiva ao ler a narrativa do massacre de Wounded Knee. Na verdade, a minha primeira publicação e iniciativa político-cultural, talvez por volta dos 10 anos, foram jornais manuscritos de um Movimento de Libertação dos Índios Norte-Americanos que criei sozinho e que introduzia nas caixas de correio dos vizinhos dos meus pais. O genocídio dos peles-vermelhas foi a primeira das muitas vis injustiças e dos frutos da profunda ignorância humana que suscitaram até hoje a minha íntima indignação. Infelizmente sei hoje que é apenas um entre muitos e que vivo num momento em que o mesmo está a acontecer com todas as formas de Vida sobre a Terra.

A adolescência trouxe consigo a revelação do Amor. Lembro-me de escrever o nome sagrado da amada na areia da praia no centro de um coração que mal expressava a dilatação do meu coração espiritual por todo o universo. Na verdade, foi a abertura amorosa do coração que me trouxe a primeira revelação, mais tarde confirmada e aprofundada pelas práticas meditativas budistas tibetanas, de que não estamos fechados dentro da pele ou do cérebro, mas que somos antes tão vastos como o inteiro cosmos. O amor e mais tarde a sua expressão na intimidade sexual trouxeram-me sempre as mais poderosas epifanias e a experiência directa de que o coração e o corpo-consciência aberto e desperto são portais de acesso directo e imediato ao sagrado, ao primordial, à Luz incriada. Descobri o Amor como uma Iluminação e uma Transfiguração de mim e do mundo. Pelo Amor senti e sinto que não se pode amar alguém senão amando tudo. Pelo Amor experienciei e experiencio que somos tudo. Pelo Amor soube que somos Amor.

Recordo por fim a abertura dos céus exteriores e interiores ao sair das aulas de Filosofia na Faculdade, quando enfim largava a trama de questões e conceitos, quando enfim deixava desabar a arquitectura de ideias, palavras e sistemas e pura e simplesmente lançava os olhos para o relvado luminoso da Alameda da Universidade e para o céu vasto aberto sobre os edifícios académicos e o jardim do Campo Grande. Vi que nos livros e nas aulas – e sou muito grato aos óptimos professores que tive – aprendi a pensar teoricamente sobre o ser e a verdade, mas que era só quando largava tudo isso e simplesmente me abria à nudez da experiência imediata do que se não pode dizer que havia a experiência do que os gregos chamaram alétheia, des-ocultamento do que é tal como é. Esta experiência marcou decisivamente todo o meu percurso até hoje, destinando-me a procurar nas práticas meditativas e contemplativas das tradições espirituais da humanidade o que os livros e o ensino meramente teórico jamais podem oferecer. Foi mais tarde que descobri, por exemplo, que olhar para o céu aberto e limpo e deixar a consciência fundir-se com ele é uma profunda prática milenar das tradições pré-budista e budista do Tibete.

É a partir destas cinco experiências fundamentais, entre outras que depois e até hoje se sucederam, que vou sendo, pensando, escrevendo, falando e agindo. É a partir delas que procuro aprofundar o mergulho contemplativo no mistério de ser, é a partir delas que aspiro a converter muros em pontes, vendo e mostrando as relações íntimas entre o que parece oposto e separado, é a partir delas que procuro resgatar os saberes tradicionais, indígenas e antigos da humanidade e mostrar a sua imensa actualidade contemporânea, é a partir delas que aspiro a não fechar o coração que o Amor abre, é a partir delas que aspiro a viver no Céu aberto da consciência não-conceptual e a contribuir para que a ele se abram todos os que a tal aspirem.

Estas experiências não são minhas. Foram-me doadas gratuitamente, tal como as mesmas e outras experiências são gratuitamente oferecidas a todos nós. Porque a Verdade procura-nos e não nos deixa até que paremos e deixemos que ela nos encontre. É por isso que aceito e agradeço, mas não considero meu o prémio que agora recebo pela minha investigação e obra. Assim o dedico e devolvo à Verdade que em todos nós e em todos os seres e coisas habita. Só a ela, que as não busca, se devem todas as honras.

Lisboa, 8 de Maio de 2019

Paulo Borges, Saudade

 
 

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