A redescoberta da espiritualidade ou cultura contemplativa

A redescoberta da espiritualidade, que não é religião, mas cultura da consciência de ser, ou cultura contemplativa, é o maior desafio e imperativo do nosso tempo. O maior porque só ela nos pode libertar da nossa maior ilusão: a de procurar fora, naquilo que não é garantido e é passageiro, a paz, a liberdade e a felicidade que desde sempre habitam o nosso ser profundo. O maior porque só ela, neste momento difícil de crise de civilização, nos pode reconectar com os nossos recursos íntimos e encontrar aí um centro a partir do qual possamos lidar positivamente com as vicissitudes e altos e baixos da vida, incluindo a doença, o envelhecimento e a morte (isso nem a economia, nem a política, nem a mera educação intelectual ou artística o podem fazer). O maior porque a espiritualidade ou cultura contemplativa pode-nos conduzir aos estados alternativos de consciência e à felicidade de ser que possibilitam a diminuição do sentimento de separação entre nós e o mundo e a simplificação da vida que por sua vez permitem a transição para uma civilização menos agressiva contra os seres vivos, a natureza e a Terra. Transformando-nos primeiro que tudo por dentro, fazendo de cada um de nós a mudança que queremos ver no mundo, como no lema de Gandhi, a espiritualidade ou cultura contemplativa são o mais sólido fundamento das mudanças para salvar a Vida na Terra: cuidar dos humanos, dos animais e da natureza como um todo inseparável, decrescimento económico e transição para uma sociedade de abundância frugal, transição da competição para a cooperação, transição da democracia representativa para formas de democracia participativa e directa, livres do fosso entre eleitores e eleitos que conduz à abstenção crescente.

A redescoberta da espiritualidade e da cultura contemplativa, nas sabedorias milenares da humanidade e nas suas sérias actualizações contemporâneas, é já um movimento de fundo – como o comprova o crescimento exponencial de praticantes de meditação, yoga e outras artes contemplativas – que começa a dar as suas flores e frutos em todas as áreas da actividade humana, também social, ambiental e cívica.

Discurso na recepção do prémio Premio Ibn Arabi – Taryumán 2019

Lisboa, 8 de Maio de 2019

https://ibnarabisociety.es/index.php?pagina=152&lang=br&fbclid=IwAR3CVN688K8Yf0YjwJcGbojf5sbZZ6yL9i04E20s_YTqdoMVdesGD9yIdyo

Parto amanhã para Ávila, onde farei na Universidad de la Mística a conferência inaugural do IX Simpósio Internacional Ibn Arabî da MIAS-Latina, com o tema Poesia y Percepción Interior (Shi’r Wa-Shu’ûr) en Ibn Arabî y la Literatura Mística. No mesmo evento apresentarei o meu próximo livro, “Presença Ausente. A Saudade na Cultura e no Pensamento Portugueses / Nova Teoria da Saudade” e receberei o prémio Premio Ibn Arabi – Taryumán 2019 que esta instituição decidiu atribuir-me pela minha investigação e obra no domínio da filosofia, literatura e espiritualidade. Não sinto que o mereça, tanto mais que outro contemplado, com o Premio Ibn Arabi – Barzaj 2019, será o grande músico Eduardo Paniagua, com uma obra imensa no domínio da música medieval espanhola. Aceito todavia esta honra pelos motivos que expresso na intervenção que farei e que aqui partilho, onde falo do que devo às epifanias fundamentais sem as quais não seria quem vou sendo.

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A Poesia é a Festa do Pensamento

A Poesia é a festa do pensamento. A Primavera que irrompe pelas frestas da razão mercantil e revela a virginal e edénica Floresta onde nunca deixámos de ser crianças a rodopiar na folia da vida, atónitos irmãos das estrelas, dos animais, das plantas, dos espíritos e dos deuses. 

Portas abertas

São múltiplas as situações quotidianas em que praticamos a cortesia de segurar uma porta aberta para esperar que os outros cheguem e por ela passem, em vez de a deixarmos fechar atrás de nós e ir em frente, sem olhar para quem venha atrás. E muitas vezes damos a primazia aos outros, ao chegar a uma entrada, abrindo-lhes a porta para que entrem primeiro do que nós. Oferecemos e recebemos vezes sem conta este pequeno gesto de cortesia, sorrimos e sentimo-nos bem com isso.

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A descoberta e a urgência da meditação

A descoberta da meditação pelos ocidentais – enquanto treino da mente para manter uma atenção calma, clara e contínua, com profundos benefícios psicossomáticos, além do desenvolvimento cognitivo-afectivo – é um fenómeno histórico-cultural e civilizacional dos mais relevantes no final do século XX e no início do século XXI.

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O que é o Amor?

O que é o amor, essa palavra que tão fundo ressoa na mente e no coração humanos e tão intimamente se associa às maiores aspirações, sonhos, gratificações, medos e frustrações da humanidade em todos os tempos?

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Outro mundo é possível. Até no futebol

O futebol é um desporto que suscita as mais violentas emoções, em conformidade com as suas longínquas origens histórico-lendárias. Uma tradição diz que na China, entre 2000 e 1500 a. C., guerreiros inventaram um meio de relaxar após a tensão das batalhas: pontapear o crânio de um inimigo de modo a ultrapassar duas estacas de bambu fincadas no solo.

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